OS EFEITOS DO AQUECIMENTO CLIMÁTICO NA BAÍA DE TODOS OS SANTOS

As alterações recentes do clima global tem sido um tema muito debatido, mas pouco é informado ao público sobre o que está ocorrendo em nossa região. Pesquisas realizadas pela Universidade Federal da Bahia têm conseguido quantificar as alterações recentes e futuras do nosso clima regional, e avaliar seu impacto na Baía de Todos os Santos.



As maiores alterações “recentes” do clima ocorreram nos últimos 20 mil anos após a Terra sair de um período glacial quando a temperatura média global foi aproximadamente 5 °C mais fria do que a média dos últimos 50 anos. Os últimos 10 mil anos compreendem um período interglacial que, de acordo com registros históricos de concentração de gases estufa, deveria já ter atingido um ápice e dado lugar a um novo ciclo de lento resfriamento atmosférico. No entanto, as atividades humanas, mesmo pré-industriais, passaram a emitir maior quantidade destes gases e a temperatura global, ao invés de diminuir, aumentou, sendo que este aumento foi de 0,8 °C desde a revolução industrial.


Pesquisas realizadas por oceanógrafos da UFBA mostram que o clima regional tem se tornado mais quente, mais seco e menos úmido ao longo das últimas 6 décadas, e que essa mudança tem sido fortemente sentida no ambiente aquático da BTS. Foi verificado que o total de chuva acumulada no ano diminuiu, quando comparada à média climatológica para período 1961-90, 20% em Salvador, 28% em Cruz das Almas e 32% em Feira de Santana. A temperatura média anual do ar aumentou cerca de 0,5 °C nas últimas 5 décadas em Salvador e no Recôncavo, sendo que se considerado apenas os meses de verão este aumento é de aproximadamente 1,6 °C.

Como resultado de menores quantidades de chuva também no interior do Estado, o rio Paraguaçu teve sua vazão média anual reduzida em 40% em relação à vazão média entre os anos de 1961-90. No rio Jaguaripe, em Nazaré das Farinhas, a redução das vazões corresponde a aproximadamente 50% da vazão média para o mesmo período.


Temperaturas do ar mais elevadas, maior evaporação e menores volumes de água doce chegando à BTS causam elevação da temperatura da água e aumento da salinidade. A salinidade média das águas da baía subiu mais que 1,0 g/kg nas últimas 5 décadas, que se considerado o volume da BTS (cerca de 10 bilhões de litros) representa o despejo de mais de 10 mil toneladas de sal dentro da baía, ou mais de 100 caminhões basculantes de sal. O aumento progressivo da salinidade tem tornado a BTS mais salgada que o oceano nos meses de verão, fenômeno que aparentemente passou a ocorrer após a década de 1990. Os resultados das pesquisas mostram que períodos prolongados de seca no rio Paraguaçu resultam em uma redução das concentrações de fitoplâncton (base da cadeia alimentar) de até 10 vezes, o que gera impacto nos estoques de peixe da baía.


Um aumento da aridez regional é previsto para as próximas décadas por vários estudos independentes realizados na UFBA e outras instituições de pesquisa nacionais e estrangeiras, o que deve continuar tornando a BTS mais quente, mais salgada e provavelmente com menos vida marinha.



Por Dr. Guilherme C. Lessa, professor adjunto da Universidade Federal da Baía – Instituto de Geociências, Departamento de Oceanografia.


Fonte:

Lessa, G. C. et al., 2018. In Baía de Todos os Santos: Avanços nos estudo de longo prazo. Link.

Lessa, G. C; Mariane, R. & Fonseca, L. 2019. Variability of the Thermohaline Field in an Large Tropical, Well-mixed Estuary: The Influence of an Extreme Drought Event. Estuaries and coasts (no prelo).




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